Mostrar mensagens com a etiqueta Processo criativo ficcional. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Processo criativo ficcional. Mostrar todas as mensagens

domingo, 31 de agosto de 2008

Momentos

Sentado ao balcão tinha uma panorâmica de todo o café.
Um café no estilo clássico, com bom gosto, com algumas mesas ocupadas por pessoas, aparentemente, também elas, de bom gosto.
A música de Caetano era o toque final naquele ambiente. Suave, de fundo, apenas perceptível a quem estava atento.
Uma mulher entra, dirige-se à mesa do canto e senta-se. O seu ar triste e cansado combina com a postura. Inclina a cabeça para trás enquanto espera.
Pouco tempo depois entra um homem, de ar confiante e sorridente, caminhando na direcção daquela mulher. Não se senta ao lado dela, preferindo ficar de pé. Diz-lhe algo que, do balcão não torna perceptível. Baixa-se, de cócoras, em frente a ela. Coloca-lhe uma mão na cara, num gesto de carinho. De seguida, conduz-lhe a cabeça na direcção da dele. Frente-a-frente, beija-a.
Do balcão, ele observa aquele casal. Avalia o momento, o gesto. Nota aí alguma insegurança de parte a parte. Acredita que aquele casal nunca antes o tinha feito. Pouco depois repetem, com um novo beijo, quase da mesma forma. Dali, do balcão, fica-lhe agora a certeza. Tinha sido a primeira vez...

terça-feira, 15 de julho de 2008

Neste mar que navego

Nas suas já habituais caminhadas de final de tarde junto ao mar reparou naquele objecto que brilhava na praia.
De cada vez que a água beijava a areia, descobria-a mais um pouco.
Dirigiu-se ao objecto. Queria perceber o que era. A pouca distância já havia percebido o que era - uma garrafa de vidro transparente igual ás que se vêem nos filmes - e logo desejou que lá dentro estivesse uma mensagem.
Por momentos, deixou-se ficar a divagar no sonho. imaginou-se a tirar a rolha à garrafa para recolher o papel, já comido pelo sol, húmido e borratado.
Imaginou-se a retirar um papel. Era uma carta velha onde vinha escrito:
"Se no teu sorriso procuro o contágio da alegria sempre presente que me faz sentir melhor, no teu olhar encontro a certeza daquilo que me é importante - o gostar.
Como tenho referido, o gostar simples, aquele gostar das pequenas coisas, dos pequenos prazeres e dos curtos momentos.
Olhar-te nos olhos é, agora, para mim, tarefa difícil. Na verdade, não consigo deixar de olhar, mas rapidamente fujo daí, porque quanto mais dentro vou, mais vontade tenho. E sim, sei bem que a vontade e o desejo não superam o erro, muito menos o consertam.
Acredito que um dia vou poder voltar a olhar sem medo, acredito que tu vais querer que eu olhe para ti sem medo.
Talvez por teimosia, talvez por ter sido sempre assim, mantenho que o melhor das nossas vidas pode não se prolongar no tempo, mas não há medo de errar que me impeça de guardar o melhor que cada momento me dá. Se a duração for a mesma que dura um beijo, então que seja. Por vezes, arranca-se daí mais intensidade, mais vontade e mais prazer. Eu senti-o assim.
Volto ao porto. Iço as velas e parto. Parto, para já sem rumo, e sei que vou encontrar outras paragens. Parto na certeza de que voltarei. Essa certeza de que os ventos que nos levam serão os mesmos que nos fazem sempre voltar.
Nesta viagem solitária, encontro-te no Sol, no mar, na luz da Lua e no vento.
E é por isso que nunca me sinto só."
Pegou na garrafa. Era uma qualquer garrafa de vinho que ali tinha sido abandonada. Pegou nela e levou-a ao vidrão. Soltou-a e logo em seguida ouviu os estilhaços do vidro que cai no meio de tantos outros.
Nesse preciso momento, percebeu que a vida lhe dava bem mais do que uma simples garrafa velha e vazia. Bastava apenas acreditar.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

O velho e a laranja

As rugas que tem por toda a cara, a pele queimada e o ar rude mas ao mesmo tempo cheio de afecto, as mãos já secas, de dedos grossos, testemunhas de uma vida de histórias que sempre conta quando conhece alguém, fazem ficar ali, imóvel a olhar para ele, a ouvi-lo. Faz acreditar no que diz porque o diz com convicção, porque conta histórias onde apetece entrar. Fala sobre coisas simples, tão simples que esquecemos que a vida antes era assim e que, agora, não o é porque perdemos mais tempo à procura do que nunca vem, do que a viver o que já cá está.
No meio de uma qualquer história, de repente, diz:
- Imagina uma laranja.
- Uma laranja? - responde, algo perplexo, sem perceber que raio tem uma laranja a ver com o que ele conta? - Está bem. Uma laranja... já está.
- O aspecto não é o melhor, não tem aquela cor brilhante das laranjas dos supermercados, mas sabes, é daquelas doces que encontras nos pomares das aldeias. Olha para ela, é uma laranja comum, como tantas outras, com uma cor baça, mas muito redondinha e mais pequena que as que habitualmente compras. Corta a laranja. É das de casca fina, como as mais saborosas sempre são.
- Sim, dizem que sim.
- Espreme-la directamente para a boca. Sabe bem, é doce, muito doce. Já não te recordavas de um sabor assim. As do supermercado não sabem assim. Vais espremendo lentamente. Tens que sentir cada gota que te cai na boca, saboreando cada momento. Sabes que tens que ser paciente, que ser delicado, para que não percas nenhuma gota.
- Nunca espremi nenhuma laranja directamente para a boca. Parece estranho.
- Pois, mas não é. Além disso, é um momento só teu. Em que longe de tudo, longe de todos, aproveitas todo o tempo que tens para saboreá-la. Há, no entanto, uma coisa que deves saber fazer.
- O que é?
- Deves saber quando parar.
- Quando parar? Paro quando não cairem mais gotas de sumo!
- Errado. Uma laranja vai sempre ter mais uma gota. É essa que tens que evitar. A partir de certo momento, a laranja vai largar o sumo da casca. De tanto a apertares ela vai ceder, como cedeu no início, quando te deu o seu sumo doce. Nessa altura ela vai-te dar um sumo amargo, o da casca. E aí, quando parares o sabor que te vai ficar na boca é o amargo da casca. O pior é que é também esse o sabor que irás recordar mais tarde. Por muito doce que tenha sido o sumo da laranja, só ficarás na boca com o amargo. Se não parares a tempo, terás que saber apreciar o sabor amargo.
- Refere-se à vida?
- Não. Ainda não comecei a viver o sabor amargo da casca, para mim ainda só existe o sabor doce. Mas poderia ser sobre a vida.
- Pode também ser sobre um relacionamento.
- Sim. mas também não é sobre isso. É sobre uma laranja.
- Oh! Não me contou esta história só por causa de uma laranja.
- E porque não? As coisas simples também fazem parte. Mas tens razão. Chamemos-lhe momento. Na nossa vida devemos saber aproveitar o momento como aproveitamos o sabor da laranja. Podemos mesmo arriscar. Podemos conseguir viver com o sabor amargo e, até, aprender a gostar do amargo, só que nós fomos feitos para apreciar melhor o doce do que o amargo. Por isso, na maioria das vezes, procuramos o que é doce e evitamos o que é amargo.
- E se, sem depender de nós, acabarmos por provar o sabor amargo?
- Depende sempre de nós. Ou porque escolhemos mal a laranja, ou porque a esprememos mal.
- Não concordo. E, pensando bem, não sei se esta história pode ser comparável a um momento. Não podemos beber duas vezes o sumo da mesma laranja...
- Nenhum momento se repete. Não te convenças do contrário. Só saboreias uma vez o sumo de uma laranja, mas podes várias vezes tirar a laranja da mesma árvore, do mesmo ramo, do mesmo galho. Tantas vezes quantas a laranjeira der laranjas, que é basicamente enquanto vive.
- Então o melhor é tentar acertar sempre na melhor laranja e usar da experiência para saber quando parar.
- Hum... nunca te esqueças de escolher a melhor laranjeira. Mesmo nos piores anos, vai-te dar sempre melhores laranjas...

domingo, 16 de dezembro de 2007

Nunca gostamos o suficiente

- Vou embora.
- Já?
- Sim. Tenho que ir.
- Tens mesmo ou queres?
- Já te tinha dito que tinha decidido ir-me embora.
- És egoísta.
- Sou egoista porque tomo decisões?
- Não. És egoísta porque tomas decisões individuais. Ir é uma decisão que só tu podes tomar. Ficar é uma decisão que ambos teriamos que tomar, em conjunto. Nunca me deste essa opção.
- Teria valido a pena?
- Agora nunca vais saber...
- Tu e os teus jogos... nunca gostei disso em ti. Disse-to várias vezes.
- Houve tanta coisa que nunca gostaste em mim...
- ... e no entanto fiquei contigo todo este tempo...
- E no entanto ficamos juntos pelo que gostavas em mim e pelo que eu gostava em ti, apesar do que não gostavamos, para além do que não gostavamos.
- Algum dia gostaste de mim o suficiente?
- Não. E espero que também não tenhas gostado de mim o suficiente. Quando...
- ... tu és...
- ... espera. Deixa-me terminar. Quando se gosta de uma mulher extraordinária como tu, nunca se gosta o suficiente, porque por muito que se goste não vai ser suficiente, nunca se consegue gostar no valor total do que a pessoa é ou representa para nós. É também por isso que espero que também não tenhas gostado de mim o suficiente, apenas porque gostava que me considerásses um homem extraordinário.
- Tu e as tuas teorias! Impressionante, nunca te cansas de criar novas teorias! Mesmo neste momento...
- É o momento ideal. Uma despedida traz-nos novas aprendizagens, por isso novas teorias. Foi difícil aprender a lidar contigo. Hoje vai ser preciso aprender a viver na tua ausência.
- Acho que estás enganado, mais uma vez. Pareces sempre mais preocupado em aprender com as situações do que em vivê-las...
- ... achas que não te vivi?...
- ...agora sou eu quem te peço que não me interrompas. Viveste sim. Eu disse pareces, não disse que efectivamente o fazes ou fizeste. Talvez à posteriori o faças, de facto. Puxas a cassete atrás e crias as tuas teorias baratas...
- ... barat...
- ... não me interrompas. Ouve-me até ao fim. É a tua forma de ser que, já te disse, não gosto, mas aprendi a respeitar, precisamente porque me viveste e permitiste que eu te vivesse. E gostei muito do que vivemos, da forma como nos vivemos e, sobretudo, do que convivemos.
- Tens mesmo de ir?
- Tenho. Não porque esteja cansada de cá estar, mas porque não quero ir quando já estiver cansada. Nessa altura já alguma coisa não vai estar bem. Não quero isso.
- Falavas tu de teorias baratas?!...
- Não é uma teoria, mas um modo de estar.
- Baseado numa teoria!!
- Mais a mais, sabes que eu sempre fui assim. Quando cá cheguei vinha de algum lado. Vinha de outro lado.
- Achas que algum dia vais ter vontade de ficar para sempre num sítio?
- Não sei. Não me parece.
- Mas gostavas de um dia vires a ter essa vontade?
- Nunca pensei nisso. E com certeza que também não será agora que vou pensar...
- No que é que vais pensar agora?
- Em ti!
- !!! Isso faz lembrar aqueles romances dos filmes melodramáticos em que quem vai fica a pensar em quem fica, por pena ou compaixão. Espero que não te passe ter pena de mim.
- És tão idiota! Claro que não. Penso em ti porque penso na tua teoria de que não gostei de ti o suficiente.
- Afinal gostas das minhas teorias!
- Algumas fazem sentido, sim. Esta não sei se faz, mas que me parece bem, lá isso parece. E nesse sentido sim, de facto não gostei nunca o suficiente de ti!
- Do que é que mais vais sentir falta?
- Do que haveria de ser? De ti...
- Não é isso. Obviamente que ambos sentiremos a falta um do outro, mais do que qualquer outra coisa. Refiro-me a rotinas, a lugares, sei lá!
- Existem várias coisas que me farão certamente pensar mais nelas. O calor do Algarve e a praia, o sol e a luz de Lisboa, a humidade e o cinzento do Porto. Num país tão pequenino, um contraste tão grande. O cheiro da tosta mista, os aromas das comidas tradicionais, o cheiro a peixe grelhado na brasa no Verão. Parece estúpido, são coisas simples, mas tão características de cá. Tudo o resto existe em qualquer parte do mundo.
- Nunca tinha pensado nisso!
- Olha, o táxi já chegou. Tenho de ir.
- Adeus Jane. Boa sorte. Vai dando notícias. Portimão terá sempre um lugar para ti.
- Adeus, Zézé Camarinha. Até um dia...

sábado, 10 de novembro de 2007

Inventamos o Tempo

Inventamos o tempo
Inventamos as palavras e experimentamos
Experimentei-te, experimentaste-me
Criamos novas cores, sons e sabores
O cheiro, a sensação dos aromas, fomos nós
Dividimos as horas, fizemos crescer os minutos
Pintamos os sonhos em cores nunca imaginadas
Roubamos do céu as nuvens e do mar as ondas
Cortamos o vento em pequenos pedaços de brisa
Construimos caminhos para um novo futuro
Caminhos onde nunca nos cruzamos
Inventamos o mundo, fomos nós
Criamos, experimentamos, construimos
Soubemos sempre a resposta. Paramos
Paramos e perguntamos: valeu a pena?
Havemos de inventar a resposta
Um dia, quando nos encontrarmos


The Bravery - Time Won't Let Me Go